Tudo que você sabe sobre corrida está mudando.
A primeira maratona da LIVE! em Brasília mostrou que talvez o maior movimento das corridas de rua não esteja nos quilômetros percorridos, mas na forma como elas passaram a reunir pessoas.
Fernanda Lira
06 de agosto de 2026

Na fila para retirar meu kit, enquanto observava o mapa da arena, ouvi uma conversa entre um pai e um fotógrafo que acabaria mudando completamente a forma como eu enxergaria aquele fim de semana. Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquela conversa de menos de um minuto explicaria muito melhor o evento do que qualquer release que eu havia lido. Imaginei que aquele pai também fosse correr com a família e perguntei em qual distância estaria inscrito.
Ele sorriu e respondeu:
— Eu não vou correr. Estou pegando os kits da minha esposa e dos meus três filhos. Eu só vou torcer, aproveitar o fim de semana com eles e, claro, registrar esses momentos.
Naquele momento, sem perceber, aquele pai resumiu uma transformação silenciosa que vem acontecendo nas corridas de rua no Brasil e no mundo e uma conversa de menos de um minuto. Afinal, quando uma corrida deixa de ser apenas uma corrida? Durante muito tempo, a resposta parecia simples: uma corrida era um evento esportivo.
As pessoas retiravam seus kits, acordavam cedo, alinhavam-se na largada, cruzavam a linha de chegada, recebiam um lanche e uma medalha e voltavam para casa. O percurso era a experiência e o tempo no relógio era o resultado. Mas uma mudança nesse universo aconteceu.
Nos dias 1º e 2 de agosto, último final de semana, Brasília recebeu a primeira maratona de 42 quilômetros da história do circuito LIVE! RUN XP. Mais de seis mil atletas participaram das provas de 5 km, 10 km, 21 km, 42 km e da Corrida Kids, distribuídas ao longo de um fim de semana inteiro.
Mas limitar aquele evento aos quilômetros percorridos talvez seja deixar escapar justamente o que ele teve de mais interessante. A corrida continuava sendo o motivo que levava milhares de pessoas até a Esplanada dos Ministérios mas ela já não era mais o motivo pelo qual elas permaneciam ali. Essa permanência era construída por outra lógica.
Ela começava dias antes da largada, na Expo instalada no Mané Mercado do Mané Garrincha. Continuava na retirada dos kits, nas ativações de marcas, nos espaços de convivência, na Corrida Kids, nos serviços de recuperação física, nas áreas de alimentação, nos shows e seguia mesmo depois que os últimos corredores cruzavam a linha de chegada. A programação foi distribuída ao longo de quatro dias e transformou uma prova esportiva em uma experiência de fim de semana.
E esse é o ponto. Durante muito tempo, o wellness foi entendido como uma prática individual de cuidar do corpo: acordar cedo para correr, dormir melhor, controlar a alimentação, etc. Hoje, o conceito foi ampliado.
Em um cotidiano marcado por excesso de informação, jornadas cada vez mais aceleradas e relações frequentemente mediadas por telas, cresce a necessidade de encontrar ambientes onde seja possível desacelerar sem parar completamente. Lugares onde desconhecidos compartilham um mesmo propósito e energia, ainda que por apenas algumas horas. Não por acaso, o Global Wellness Institute estima que a economia mundial do bem-estar movimentou cerca de US$ 6,8 trilhões em 2024 e deverá alcançar aproximadamente US$ 9,8 trilhões até 2029, consolidando-se como um dos setores que mais crescem no mundo.
Não se trata apenas do crescimento das academias ou da venda de produtos saudáveis mas do avanço relacionado ao surgimento de experiências que integram atividade física, lazer, saúde mental, alimentação, turismo e convivência. E as corridas de rua entregam o pacote completo. O próprio mercado brasileiro confirma essa transformação.
Segundo dados apresentados pela Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), em parceria com a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), o número de corridas oficiais realizadas no país cresceu 85% em 2025 em relação ao ano anterior. O crescimento impressiona, mas talvez o dado mais importante seja outro: as pessoas não estão procurando apenas novas provas. Elas procuram novas experiências e é por isso que vemos tantos atletas entusiastas e influenciadores viajando pelo mundo para correr.
E foi exatamente isso que enxerguei nesse último fim de semana em Brasília. E a LIVE! não está sozinha nessa leitura: o mundo descobriu que a experiência começa antes da largada e termina muito depois da chegada.
Ela conseguiu traduzir para Brasília uma transformação que já vem sendo observada em algumas das principais provas do mundo. Durante muito tempo, o sucesso de uma corrida era medido pela qualidade do percurso, pela organização da prova e pelo número de inscritos. Esses fatores continuam sendo fundamentais, mas deixaram de ser suficientes.
Para os organizadores, está muito claro que a corrida dura algumas horas e a experiência pode durar dias. É justamente por isso que algumas das maiores maratonas do mundo começaram a investir em algo que, anos atrás, parecia secundário: tudo aquilo que acontece antes e depois da linha de chegada. Um dos exemplos mais interessantes é a London Marathon.
Paralelamente à prova, a organização realiza o Vitality Wellness Festival, um festival gratuito dedicado ao bem-estar. Em vez de criar um ambiente pensado exclusivamente para corredores, o evento reúne aulas abertas de yoga, escalada, esportes para diferentes idades, atividades infantis, música ao vivo, alimentação saudável, palestras e espaços voltados à recuperação física. O objetivo é simples: transformar a maratona em uma celebração da vida ativa, permitindo que familiares, amigos e até quem nunca pensou em correr encontrem motivos para participar daquele fim de semana.
Na prática, a corrida deixa de ser o único acontecimento e a passa a ser o centro de um ecossistema. Algo semelhante aconteceu na Copenhagen Marathon, na Dinamarca. Os organizadores perceberam que muitos corredores cruzavam a linha de chegada, recebiam a medalha e iam embora.
A experiência terminava exatamente onde deveria começar a celebração. Nos últimos anos, decidiram mudar essa lógica. O pós-prova passou a receber áreas gastronômicas, programação musical, lounges de convivência e espaços desenhados para que corredores, familiares e amigos permanecessem juntos depois da corrida.
A própria organização descreve esse novo momento como uma grande celebração coletiva, reforçando que o evento não termina quando o cronômetro para. Ele continua enquanto as pessoas desejarem permanecer ali. Há ainda outro movimento interessante surgindo em diversos países: o das runcations — uma combinação das palavras run e vacation.
Nesse modelo de negócio, as pessoas deixam de escolher apenas uma corrida e escolhem primeiro um destino. Viajam para conhecer uma cidade, sua cultura, sua gastronomia e seus pontos turísticos. A prova torna-se apenas um dos capítulos daquela viagem.
A medalha continua importante, mas divide espaço com os restaurantes descobertos, as paisagens percorridas, as conversas iniciadas e as lembranças construídas ao longo do caminho. A corrida passa a ser uma porta de entrada para viver uma cidade. E foi impossível não pensar nisso enquanto corria por Brasília.
Talvez por conhecermos tanto a cidade, às vezes nos esqueçamos do quanto ela pode ser extraordinária quando muda de perspectiva. No sábado, os corredores ocuparam o Eixo Monumental no fim da tarde, acompanhados pelo pôr do sol laranja do Cerrado. No domingo, poucas horas depois, a mesma cidade recebia milhares de pessoas antes do amanhecer em diversos tons de azul, amarelo e laranja.
O sol surgia lentamente atrás da Esplanada dos Ministérios enquanto os primeiros atletas avançavam por uma capital ainda silenciosa. Não eram apenas horários diferentes mas duas cidades diferentes. Brasília deixava de ser apenas o cenário da corrida e passava a fazer parte da experiência.


Essa talvez tenha sido uma das decisões mais estratégicas da organização. Em vez de esconder a cidade atrás do percurso, o percurso foi desenhado para revelar a cidade. A monumentalidade da Esplanada e a luz característica do Cerrado deixaram de ser pano de fundo para se tornarem parte da memória construída pelos corredores.
E pela primeira vez comprei fotos olhando em primeiro lugar para o cenário onde eu me encontrava. E é exatamente isso que acontece nas grandes maratonas internacionais. Quem corre Nova York lembra da chegada no Central Park, quem corre Berlim lembra do Portão de Brandemburgo, quem corre Londres leva consigo a Tower Bridge.
E Brasília passou a oferecer essa mesma possibilidade. E talvez seja justamente por isso que a escolha da capital tenha sido muito mais estratégica do que parece à primeira vista.
A LIVE! poderia ter lançado sua primeira maratona de 42 KM em qualquer capital brasileira já consolidadas no calendário esportivo nacional mas escolheu Brasília. , ao explicar o legado que a organização pretendia construir: "O legado que fica é o de oferecer uma estrutura que realmente se preocupa com o bem-estar e a experiência dos atletas. Não se trata apenas de uma corrida de rua. Existe o antes, o durante e o depois. " Essa declaração ajuda a entender que o objetivo era criar um ambiente onde diferentes pessoas encontrassem diferentes formas de viver o mesmo evento. Enquanto algumas buscavam completar sua primeira maratona, outras faziam sua estreia nos cinco quilômetros.

Foto: Ginza Studio / LIVE! Run XP Brasília
Crianças descobriam o prazer da corrida. Pais acompanhavam os filhos ou recebiam as medalhas de seus filhos. Amigos torciam na arena. Cada uma dessas pessoas levou para casa uma experiência diferente mas todas compartilhavam o mesmo espaço. E eu vivi essa experiência, sem grandes registros, mas com presença. Eu não estava buscando acumular quilômetros nem bater meu melhor tempo.
Estava atrás de uma oportunidade rara: correr por uma cidade que, por algumas horas, deixaria de pertencer aos carros para pertencer às pessoas. Em menos de vinte e quatro horas, vivi duas Brasílias completamente diferentes: ao entardecer e ao amanhecer. Foi nesse momento que compreendi algo que conversa diretamente com o fenômeno das runcations observado em diversos países.
Viajar para correr deixou de significar apenas participar de uma prova e passou a significar conhecer um lugar de um jeito diferente. Curiosamente, não precisei sair da minha própria cidade para viver essa sensação. E pela primeira vez em muito tempo, senti que estava conhecendo Brasília novamente.
E durante os 10 km pude ver atletas de elite, que eu só veria no dia seguinte enfrentando 21 km ou 42 km, vivendo essa experiência, interagindo com pessoas em ritmos diferentes com um pôr do sol ou amanhecer de tirar o fôlego embalados ao vivo pela Banda Eva para celebrar. Achei esse detalhe particularmente simbólico pois se até atletas acostumados a transformar segundos em resultados estavam escolhendo permanecer ali por causa da experiência, talvez estivéssemos diante de uma mudança muito maior do que uma nova forma de organizar corridas.
Mas ambientes assim não acontecem por acaso. Esse evento levou 5 anos para se concretizar com muitas marcas envolvidas para entregar essa experiência. Ali havia crianças brincando, atletas de elite, corredores iniciantes, famílias inteiras, idosos, jovens, voluntários, patrocinadores, artistas e pessoas que sequer haviam colocado um número de peito e cada uma vivia o evento de uma forma diferente.
Mas todas pareciam compartilhar a mesma energia. Durante muito tempo associamos bem-estar ao cuidado individual: alimentação equilibrada, atividade física, sono e prevenção. E tudo isso ganhou muito mais força porque encontrou um lugar que oferece pertencimento para qualquer pessoa.
Pra mim, a maior conquista daquele fim de semana talvez não tenha sido completar 10, 21 ou 42 quilômetros mas perceber um ponto comum entre todas as gerações que estão convivendo atualmente: a busca por lugares onde seja possível desacelerar sem parar, cuidar do corpo sem abrir mão da convivência e celebrar conquistas individuais dentro de experiências coletivas. Talvez seja por isso que o wellness tenha crescido tanto nos últimos anos.
Não porque as pessoas decidiram correr mais mas porque descobriram que, em um mundo cada vez mais individual, poucas experiências ainda conseguem fazer desconhecidos sentirem que pertencem ao mesmo lugar. A corrida continua sendo individual mas talvez nunca tenha sido tão coletiva quanto agora.

Foto: Ginza Studio / LIVE! Run XP Brasília
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